(...) Entender que tudo é nosso
Sempre esteve em nós
Somos a semente
Ato mente e Voz
Como se fora brincadeira de roda
Jogo do trabalho na dança das mãos
O suor dos corpos
Na canção da vida
O suor da vida
No calor de irmãos."
(Elis Regina)
Não consegui pensar em nenhum outro texto, verso ou passagem que melhor refletisse o que senti na manhã do dia 17 de janeiro de 2016. Acordei extremamente tonta, com dor de cabeça, e aquela fadiga que todo esclerosado conhece bem. Ainda mais se considerarmos que 2 dias antes eu encerrava a minha segunda rodada de 3 dias de cortisona intravenosa! Eram 8:30 da manhã e eu precisava chegar na casa da minha irmã em 30 minutos. Olhei pra um lado, pro outro, o meu mundo girava mais do que o da Daniela Mercury. Pensei, profundamente, por alguns segundos e decidi levantar ainda que meu corpo se recusasse. Minha convicção era maior, naquele momento.
Às 9:05 já estava no local do meu compromisso, pronta para trabalhar! Quem me conhece, certamente deve estar se perguntando: "TRABALHAR?" "Você que ama dormir até tarde?" "Você que ama ser servidora pública? No domingo?" Pois, esse é EXATAMENTE o ponto. Quem me conhece de verdade, sabe que eu AMO SERVIR! Dentro do meu ritmo, nos momentos que sinto vontade, cheia dos meus defeitos, mas AMO!
Fazia mais de uma década que não praticava nenhum trabalho voluntário. EU SENTI QUE PRECISAVA estar ali naquela manhã. Com certeza, eu precisava muito mais do que cada vovó ou morador em situação de rua, foco do grupo de ajuda coordenado pela minha irmã! Montamos algumas centenas de kits de higiene, separamos absorventes (porque PASMEM, as moradoras de rua também ficam menstruadas!), ensacamos tudo, lotamos dois carros e parte de nós, foi levar todos esses kits para um outro local de armazenamento. Eu, perdida que sou, ajudei a minha irmã AINDA mais perdida, a achar o endereço, no pé do morro dos macacos. Nesse momento, agradeço ao Inea, que me apresentou o 222, e ao 222, que me apresentou a rua Torres Homem, quando ali ainda não havia uma UPP. Servi de navegadora e de calmante para a "sister média" que estava ligeiramente preocupada com a integridade fisica de quem a acompanhava. Quem me conhece sabe que sou dada a papear com as pessoas independente da profissão que exercem, da cor da pele, da situação de gênero, e também do CEP em que residem. Tendo namorado morador de comunidade e vivido uma juventude que deu à minha mãe cabelos brancos, adquiri, minimamente, a capacidade de identificar quando algum risco se aproxima. Nada aconteceu. Voltamos para casa, ambas mais CONTAGIADAS PELO BEM! E eu? Tonta, fraca, exausta, com dor, ainda esclerosada, mas multiplamente FELIZ!
Passei a tarde descansando, porque a noite era de comemorar o níver de uma contagiada querida, dona de uma garra incrível, de um grande coração, de um sorriso lindo, de histórias de vida difíceis e de muita paz!
Nesse momento, chamo cada um de vocês a refletir sobre o quão infinitamente grande é a capacidade humana de se doar e de ajudar. Seja a outro ser humano, a algum animal, ao meio ambiente. O mundo trata-se essencialmente de energia e matéria, distribuída em uma diversidade de corpos e estruturas. Pois bem, às vezes, escuto pessoas dizerem que não podem isso ou aquilo, que não conseguem ajudar, que é difícil viver! Não julgo essas pessoas, porque muitas vezes me pego dizendo cada uma dessas coisas. Então, em vez de julgamento, lhes faço um convite: VAMOS OLHAR MAIS PARA O LADO?! VAMOS NOS COMPARAR MENOS E AJUDAR MAIS?! VAMOS SER MAIS CARIDOSOS?!
Mais uma vez, faço uma pausa: Não chamo de caridade APENAS, a doação de grandes fortunas ou a participação em grandes grupos como os médicos sem fronteiras ou a legião francesa (SIM, ela existe fora do filme do Van Damme!). Pois, creio que a mesma diversidade que define a variedade de corpos e estruturas que existem no universo, permeia as formas possíveis de ajuda e caridade! Às vezes, um bom dia, um sorriso, um abraço, um obrigada ou por favor, alegram um dia e quiçá, mudam o rumo de alguma vida. Por isso, lhes convido a fazer o que forem capazes cotidianamente! Sem arrependimento, sem competição, sem cobrança, sem interesses, NA/COM/POR CARIDADE:
Se você é capaz de apartar uma briga de um casal de desconhecidos que está sendo agredido na praia? Aparte!
Se é capaz de cozinhar marmitas para mães de baixa renda? Cozinhe!
Se é capaz de dar aulas gratuitas em um pré-vestibular solidário? Dê!
Se é capaz de ouvir os problemas dos outros no ônibus e na vida? Ouça!
Se é capaz de ser bom filho, pai, cônjuge, amigo? Seja!
Se é capaz de cuidar do meio ambiente? Cuide!
Se é capaz de se expressar com palavras? Fale ou escreva!
Se é capaz de pintar, fazer esculturas, cantar? Faça arte!
Se é capaz de sorrir diante dos problemas e da vida? Sorria!
Se é capaz de cuidar de animais? Adote quantos puder!
Se é capaz de doar fortunas? Doe, pois é preciso!
Se é capaz de doar seu tempo em grandes iniciativas? Doe, pois também é essencial!
Mas, se você APENAS se acha capaz de ser você mesmo? Reflita!
NADA é apenas algo em si! Todo real é relacional, já dizia Bourdier! Além disso, cada atitude de um ser, é como uma jogada no jogo da vida e do mundo (já falava Norbert Elias). Cada passo que se dá, pode gerar infinitas possibilidades, não só para o dono da jogada, como para todos e TUDO que o cercam! Tenho tentado dia após dia, me imaginar em Pandora, trocando energia com o mundo, com Eywa. (SIM, do filme avatar!)
E aqui vai a lição mais importante que venho aprendendo da vida: Se após refletir, você ainda se achar APENAS capaz de ser você mesmo? Seja você! Mas, BUSQUE SER O MELHOR QUE PUDER (respeitando obviamente, as limitações impostas a cada um de nós)!
Para quem desejar conhecer e ajudar o Contagiados pelo Bem, segue a página do grupo no Facebook!



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