sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Um surto EM mim. Uma reflexão!

"A irracionalidade de uma coisa não é argumento contra a sua existência, mas sim uma condição para ela." 
(Nietzche)

Essa frase, que achei por acaso ao procurar outra, reflete exatamente o que estou vivendo nesse momento.
Há 8 anos convivo com a esclerose múltipla e agora ela resolveu acordar com força total. Estou nesse momento com três lesões novas no meu cérebro e com outras duas placas antigas em atividade. A questão é que sempre levei tudo na brincadeira não por ser forte como muitos pensam.  Mas, por ser fraca demais e incapaz de encarar a doença. Foi por isso que sempre a NEGUEI!
Fato é que agora, sem sentir muito bem as pernas e estando extremamente tonta, percebi que nesse momento a esclerose resolveu acordar e que a luta vai começar! Pode ser que a cortisona resolva o surto e eu fique bem de novo, mas, até quando? E pode ser que também não resolva! O ponto é que eu preciso, mais do que ninguém, entender e aceitar o caráter finito de toda e qualquer vida. JAMAIS compreendi e acho que por isso fico desesperada de pensar em como todos os que gostam de mim viverão sem a minha presença e ou, lidarão com uma possível futura invalidez. Na verdade, já me sinto um pouco inválida por não conseguir fazer tudo o que fazia. Por não conseguir não ficar tonta! Por sentir um cansaço atroz e uma preguiça que advém da fadiga e da depressão!
Não serei hipócrita de dizer que fiz tudo o que queria na vida. Na verdade, sempre falta algo e essa é a  graça da existência, que conscientemente enxergo, mas que não consigo aceitar intrinsecamente.
Queria ter outro filho, ter mais dinheiro para sustentá-lo, queria viajar mais por aí (vencendo o medo de avião) e queria que meu  marido não embarcasse. De resto, eu não QUERO mais NADA! Mas, infelizmente, todas essas coisas agora não são possíveis, ou ao menos, não são prudentes.
Então, lidando com o que é plausível: agora o que quero é que a cortisona faça efeito. Mas, se por acaso não fizer, eu gostaria de pedir que todos se lembrem da liane que conheceram até 2013. Quando comecei a me sentir muito tonta e aos poucos fui piorando. Não quero a pena de ninguém, sobretudo, se eu não morrer. Mas, entortar! Pessoas "tortas ou abobadas" ainda são pessoas e merecem dignidade. ISSO PARECE OBVIO, eu sei! Mas, na prática não é fácil! Eu, hoje, esclerosada há 8 anos estou aprendendo ainda a  lidar com meus colegas esclerosados e cadeirantes do fundão e eu digo, NÃO É FÁCIL! Eu ainda sinto algo semelhante à pena quando lido com eles. QUE VERGONHA DE MIM, POR ISSO!
Pode ser que demore pra isso acontecer ou que NUNCA aconteça. Mas, a morte é certa pra todos e peço a vocês que reajam da mesma forma. Que reajam naturalmente, pois a morte deve ser natural. Ela é a única certeza da vida!
Não quero interjeições do tipo:
"Ela era TÃO jovem!" "ela lutou tanto e não adiantou!" "Que tristeza!" " Coitado do filho dela!" E tampouco quero meus amigos e minha família tristes. Pelo contrário, quero uma bela  festa e quero que cuidem/ acompanhem o Lucas sempre com felicidade porque  ele é muito alegre e merece seguir assim!

Estou escrevendo agora porque a  doença me faz refletir. Na verdade,  a doença me dá  algo que muitos de  nós não valorizamos: a esclerose e a possibilidade de ficar ruim a  qualquer momento me dá a chance e a garra pra  aproveitar cada segundo mesmo que passando mal (tonta, com dor, sem sentir os braços e pernas) como se fosse o único,  o último bom e são! Eu não gostava de fotos. Agora, as amo! Elas  ficam pra posteridade. Elas captam a  essência dos momentos! A esclerose, sobretudo, me dá múltiplas possibilidades de agradecer, de me despedir e de dizer te amo a todos que desejo e da mesma forma, de receber isso das pessoas que gostam de mim! Minha avó morreu há 2 anos e fico triste de não ter ido vê-la. Ali comecei a entender verdadeiramente o que está culminando nesse texto! Que tudo passa, a gente também passa! A questão não tem que ser a morte e sim a força e a vontade com que se vive!
Parece que hoje em 5 horas chorando sozinha dentro do quarto consegui progredir mais do que em anos de EM e terapia. Acho que finalmente entendi que  existem coisas que não são controláveis e que morrer ou entortar não é derrota alguma, e sim, fatalidade! SE E QUANDO ISSO OCORRER, A CULPA NÃO VAI SER MINHA!
Outro dia, o chefe do meu chefe (grande homem) me disse: "você pode até morrer da doença. Mas, não pode deixar ela te vencer!" E é por isso, que tonta ou não. triste ou não. sozinha ou não. vou viver até o FIM!
É assim que quero que as pessoas me vejam! Sem pena! E que saibam que eu não guardo rancor e ressentimento de NINGUÉM!
Assim eu me despeço e vou ao banco. Porque a vida segue!
Texto escrito na manhã do dia 26/11/2015 e publicado via Facebook!

2 comentários:

  1. Excelente texto, como é bom quando pessoas conseguem escrever o que sentem. Qualquer circunstância que pareça ameaçar nosso cotidiano tira as cores da nossa visão e nos faz crer que o mundo é P&b. Mas nos esquecemos que a vida é isso, um baú de incertezas onde só se tem certeza de que é preciso tentar sempre, sempre o melhor para nós. Vamos continuar tentando cada um de nós em nossas trajetórias e todos juntos nesta nossa multifacetada vida.

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